Nilceia Eulampioescritora · poetisa
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Reflexões

SOLIDARIEDADE NA PERIFERIA - ENTRE FLORES E DENÚNCIAS

Ela é uma jovem mulher de classe média. Cabelos lisos e pretos. Não vou lhe dar nome. Deixarei o nome da minha primeira personagem para os meus leitores. Um pouco, porque não consigo pensar ...

Imagem de capa: SOLIDARIEDADE NA PERIFERIA - ENTRE FLORES E DENÚNCIAS

Ela é uma jovem mulher de classe média. Cabelos lisos e pretos. Não vou lhe dar nome. Deixarei o nome da minha primeira personagem para os meus leitores. Um pouco, porque não consigo pensar em um nome adequado, outro "tanto" porque mulheres que fazem a diferença nas periferias existenciais podem possuir qualquer nome, pois carregam em si a mística dessa luta milenar pela sobrevivência.Os cabelos lisos são compridos, como é de se esperar das jovens mulheres de classe média de sua época.Rosto claro, traços delicados, dava uma impressão angelical, lembrando a imagem que muitos(as) católicos(as) fazem de Maria, mãe de Jesus.Muitos dirão que é apenas um modelo de beleza pré estabelecido por padrões dominantes e exigências de uma sociedade estruturalmente machista e racista. Outros dirão que existe verdadeiramente uma beleza mística nestes rostos cuja genética possibilitou tais traços. Eu que sou múltipla, tendo a acreditar que as duas interpretações estão corretas, apesar das contradições existentes. De alguma forma misteriosa, dentro do processo de formação humana, essas duas visões se relacionam.Teríamos um encantamento "natural" quando, a fragilidade acompanhada de sensibilidade e por uma beleza socialmente aceita, chega até nós?Deixemos essas reverberações de lado e retornemos à minha primeira personagem. Como outras mulheres de sua época, estudou Pedagogia e se tornou profissional da educação. Mais tarde se torna diretora de escola. Isso sim, era uma condição socialmente posta. Temos nos esquecido que, até bem pouco tempo atrás, a profissão da mulher na sociedade estava limitada ao trabalho doméstico e educacional.Quis o destino que ela encontrasse como parceiro um político importante da cidade. Ninguém nunca entendeu o que eles tinham em comum. Mas, vida que segue….Política é sempre um lugar desafiador. Mas tenho a impressão que nas cidades do interior ela adquire um aspecto peculiar, pois o pessoal e o político se misturam com mais frequência.As normas da educação permitiam que as(os) diretoras(es) fossem transferidas(os). Quando o marido perdeu a eleição, no mesmo ano, foi inaugurada uma escola de ensino fundamental na periferia. Mas não era qualquer periferia. Era o bairro da fronteira, onde a periferia de uma cidade se encontra com a periferia de outra.Vou explicar com detalhes para as minhas leitoras de classe média. O bairro da fronteira é a terra de ninguém - é o lugar onde ninguém quer estar - nem professores, nem profissionais da saúde e nem mesmo policiais. Normalmente é onde acontecem os crimes mais violentos. É a versão atual do "Velho Oeste". É a atualização contemporânea de todos os conflitos da humanidade. As estatísticas da violência do município deixavam isso claro. Esses bairros são considerados a antessala do inferno.E, foi exatamente para a escola nova desse bairro que nossa personagem foi enviada. Entre as pessoas que conheciam a realidade e a nossa personagem, ressoava um burburinho assim:“ELA NÃO VAI CONSEGUIR, NÃO DURA TRÊS MESES. SE ELA SOUBESSE O QUE VAI ENCONTRAR. NÃO VAI SOBREVIVER. NÃO DURA TRÊS MESES.”E assim, ela chega na nova escola. Ninguém "botava fé", ninguém esperava nada de bom, nem mesmo a equipe de trabalho. A escola era nova e bonita, um enfeite arquitetônico entre um caos de violência. A pergunta era QUANDO esse "mar de VIOLÊNCIA" atingiria a escola e a transformaria em mais uma imagem fosca da degradação existente em torno. Tentou falar, não foi ouvida. Sua voz suave não conseguia se sobrepor à desesperança ao seu redor. E ainda na primeira semana, entre desespero e desolação, a alma sensível da minha personagem olha em volta. Inicialmente não viu nada. Apenas as lágrimas que pareciam querer sair de seus olhos, confirmando a fraqueza que todos anteviam. Ficou ali parada, CONTEMPLANDO o vazio do pátio escolar, quando vislumbrou um jardim em um espaço que estava vazio.E pensou consigo: “Se já não havia nada a fazer e a tendência era que a realidade se sobrepusesse aos seus sonhos, porque não reservar um tempo entre reuniões e burocracia, para fazer o que sabia fazer tão bem…”“CULTIVAR UM JARDIM.”Sua alma sensível lembrou-se da época em que ainda criança, ficava no jardim, ajudando o avô e de sua emoção infantil de ver as flores surgindo como que em mágica de um dia para o outro.Não tinha esperança que seu jardim ali plantado desse resultados pedagógicos ou organizacionais. Só precisava de um espaço e de um tempo para disfarçar a desesperança, o medo e o desespero que assolava a sua alma.E assim, levou para a escola as ferramentas e começou a trabalhar na terra sozinha. Não sei se por mágica, mística ou encantamento, passou pela escola, um belo dia, um senhor de idade e viu aquele ser quase angelical a trabalhar na terra. Achou que era um trabalho pesado demais para ela, decidiu se oferecer para ajudar, e fizeram juntos o trabalho mais pesado.Foi neste mesmo período que apareceu em sua sala de diretora, o primeiro caso de maus tratos e abuso sexual. Todos da sua equipe apostavam que em sua fragilidade, a diretora encobriria o caso. Mas quando a fragilidade é acompanhada de sensibilidade e uma certa ingenuidade, surpresas acontecem: pegou a criança, colocou no seu carro e imediatamente entregou às autoridades competentes. Depois voltou à escola, deixou seu jardim de lado e procurou escrever o mais coerente dos relatórios. Pediu às autoridades sigilo pela denúncia, o que foi respeitado.Voltou então ao seu jardim, as sementes já estavam brotando e logo se veriam as flores. Alguém sugeriu que se plantasse também temperos e plantas medicinais de uso popular. Alguém trouxe as mudas, e alguém trouxe outro caso de maus tratos. E de novo, a emergência da sensibilidade humana se colocava em ação. Criança acolhida, colocada no carro, encaminhada às autoridades competentes com rapidez. Relatório impecável, pedido de sigilo.E assim o ano foi passando entre flores, denúncias, acolhimento, encaminhamento. Cada gesto, uma nova esperança.E já se aproximava a primavera, as flores prontas para se abrirem, as crianças da escola fazendo aula prática entre os canteiros, aprendendo a mística das flores e o conhecimento de plantas que curam, quando um fato peculiar lhe "abre os olhos" para a sua importância naquela comunidade:Alguém chega até ela e diz: “Nós sabemos o que a senhora faz pelas nossas crianças, e temos um caso que não é da sua escola. Esse é o endereço e o nome de uma criança que sofre abuso sexual. Nós não podemos denunciar porque sofreremos represálias. Sabemos que a senhora sabe o que fazer.”Sentiu medo, mas sorriu feliz e aliviada - suas flores e suas denúncias tinham se tornado uma referência de vida para suas crianças, sua equipe de trabalho e sua comunidade escolar.

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