Quando o medo transforma o outro em inimigo
Quando falamos de fascismo no Brasil, precisamos compreender que ele não surgiu do nada.
Na década de 1930, a Ação Integralista Brasileira (AIB) tornou-se o principal movimento fascista organizado do país, reunindo centenas de milhares de militantes e simpatizantes.
Mesmo depois da queda dos regimes fascistas na Europa e da desarticulação dos movimentos fascistas organizados, suas ideias não desapareceram completamente. Elas permaneceram circulando na sociedade e, em diferentes momentos históricos, voltaram a ganhar força.
O fascismo não é um fenômeno exclusivo de uma determinada classe social. Ele pode encontrar apoio tanto em setores das classes médias quanto entre pessoas das camadas populares.
Mas por que isso acontece?
Historicamente, o fascismo cresce em momentos de crises profundas da sociedade: crise econômica, social, política, cultural e também crise de valores.
Quando as pessoas vivem insegurança, medo, frustração e perda de referências, torna-se mais fácil acreditar em discursos que apresentam soluções simples para problemas complexos.
E hoje vivemos uma espécie de crise das crises.
Não é apenas uma crise econômica. Temos crises sociais, ambientais, culturais, políticas e humanas. E, nesse cenário, uma nova onda de ideias neofascistas ganhou espaço em várias partes do mundo.
As redes digitais contribuíram muito para esse processo.
Por meio delas circulam rapidamente desinformação, distorções da realidade, discursos de ódio, preconceitos e teorias que transformam o outro em inimigo.
E muitas vezes tudo isso aparece revestido de palavras e valores aparentemente positivos:
PÁTRIA, FAMÍLIA, MORALIDADE E ORDEM.
Mas precisamos perguntar:
Que ideia de Pátria é essa que exclui seus próprios filhos?
Que defesa da Família é essa que rejeita quem pensa diferente?
Que moralidade é essa que alimenta a intolerância?
E que ordem é essa que pode justificar a violência e a exclusão?
O problema não está nas palavras em si — pátria, família, moralidade e ordem podem ter profundo significado humano. O problema está quando esses valores são apropriados por uma ideologia para criar inimigos, justificar a exclusão e colocar alguns seres humanos acima de outros.
O fascismo cresce justamente quando deixamos de enxergar o outro como pessoa e começamos a enxergá-lo como ameaça.
É quando o “nós” desaparece e só existe o “eu”.
Cada um por si.
Cada um lutando pelos seus próprios interesses.
E o outro passa a ser visto como alguém que precisa ser combatido.
Mas o Evangelho nos apresenta outro caminho.
Jesus não constrói uma sociedade baseada no medo, na exclusão e na eliminação do diferente.
Jesus nos chama para a fraternidade, para a solidariedade e para o cuidado com a vida.
Por isso, diante do crescimento de discursos de ódio e intolerância, precisamos recuperar uma pergunta fundamental:
Que sociedade queremos construir?
Uma sociedade fundada no medo e na competição, onde cada pessoa luta apenas por si?
Ou uma sociedade fundada na fraternidade, na justiça, na solidariedade e no cuidado com toda a vida?
Talvez seja justamente aí que a fé cristã tenha algo muito importante a dizer ao nosso tempo:
Não podemos construir o Reino de Deus transformando nossos irmãos e irmãs em inimigos.
A verdadeira fé não alimenta o ódio.
A verdadeira fé nos ensina a reconhecer no outro um irmão.

Escrito por
Alessandro Poeta
Poeta, teólogo e comunicador do canal Fé, Versos e Vida em Poesia. Reflexão lírica e bíblica com afeto e serenidade.
Aprofunde sua jornada no Portal Diálogos
Reflexões contínuas, intenções de oração e e-books exclusivos de Nilceia Eulampio e Alessandro Poeta para nutrir a alma.
Este texto tocou seu coração? Compartilhe com alguém. 💛
Comentários 0
Para comentar, entre com sua rede social ou preencha os dados abaixo.
Ainda não há comentários por aqui. Seja a primeira a deixar uma palavra! 💛