Dois jovens tinham um sonho partilhado: entregar suas vidas ao ministério sacerdotal e servir ao povo de Deus. André e João, companheiros inseparáveis desde a infância, fizeram todo o acompanhamento vocacional e, ao concluírem o ensino médio, ingressaram juntos no seminário.
Percorreram a longa caminhada da formação integral: os estudos intensos de filosofia, a teologia e as experiências pastorais junto às comunidades. João, comunicativo e sensível, também gostava nas horas de descanso de estar entre amigos, partilhando um momento festivo. Tudo de forma equilibrada no início.
Os anos se cumpriram, e o dia da ordenação foi uma bênção luminosa celebrada por familiares e pela comunidade. Cada um foi enviado para sua paróquia. Com o passar do tempo, no entanto, as pressões silenciosas da solidão e as fraquezas humanas abriram brechas no coração de João. O consumo de bebida foi perdendo o controle, tornando-se um caminho doloroso de dependência.
A comunidade tentou acolher e informou o bispo, que o chamou com carinho e pediu que se tratasse. Mas o abismo do vício era profundo. João foi afastado das atividades pastorais. Voltou à casa da família, tentou recomeçar, mas a vergonha o dominou. Em um ato de desespero, entregue ao álcool e ao isolamento, deixou a família e sumiu no mundo das ruas.
Passaram-se três anos dolorosos. Aquele homem sábio, de inteligência brilhante e coração pastoral, vivia agora como morador de rua. Roupas rasgadas, barba e cabelos compridos, maltrapilho, passava os dias sentado nos degraus de uma igrejinha de pequena cidade, com um boné virado para cima esperando a esmola de quem passava.
Aconteceu que o padre daquela matriz, ao chegar para a missa das sextas-feiras, começou a notar aquele mendigo solitário. Na terceira sexta-feira, movido por uma compaixão profunda, aproximou-se para conversar. Ao ouvir aquela voz rouca responder com nobreza, paralisou: era o seu querido amigo de seminário, o padre João.
André não o julgou, não deu lições de moral nem o censurou. Abraçou aquele corpo ferido e perguntou com lágrimas: "Meu amigo, como você chegou até aqui?". João, de cabeça baixa, desabafou: "Estou sem rumo, entregue ao vício. Quero sair, mas tenho vergonha de voltar".
Na intimidade de quem conhece a essência do outro desde menino, André segurou forte a mão do amigo e disse: "Joãozinho, dê a sua mão, levanta-se! Hoje você vai concelebrar a missa comigo". João hesitou: "Não posso, André... não tenho túnica, não tenho estola, estou sujo". André sorriu com a ternura do Evangelho: "Nada disso importa. Vamos para a casa paroquial agora".
Lá, André chamou um amigo cabeleireiro, que cuidou de João com respeito e carinho. Deram-lhe um banho revigorante, novas vestes, túnica e estola. Naquela noite de sexta-feira, os dois amigos de infância subiram juntos ao altar para consagrar o pão e o vinho. João foi resgatado pelo amor incondicional que não desiste de ninguém.
Às vezes, Deus não transforma a vida de uma pessoa por meio de um raio extraordinário vindo do céu. Ele transforma porque um amigo de verdade tem a coragem evangélica de estender a mão e dizer: Joãozinho, dê a sua mão, levanta-se.

Escrito por
Alessandro Poeta
Poeta, teólogo e comunicador do canal Fé, Versos e Vida em Poesia. Reflexão lírica e bíblica com afeto e serenidade.
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