Estou aqui refletindo...
Nos últimos anos temos assistido ao crescimento de um setor neoconservador dentro da Igreja Católica. Um setor que questiona o Concílio Vaticano II, critica constantemente o Papa, rejeita muitas das mudanças promovidas pelo Concílio e defende o retorno de uma Igreja mais fechada, centralizadora e marcada por uma liturgia em latim, como se isso, por si só, fosse garantia de maior fidelidade ao Evangelho.
Ao mesmo tempo, esse mesmo setor costuma afirmar que a Igreja perdeu sua identidade por causa da Teologia da Libertação. Dizem que ela contaminou a Igreja com ideias comunistas. Que a missão da Igreja deve ser apenas salvar almas. Que a defesa dos pobres, da justiça social, dos direitos humanos e da ecologia não faz parte da missão da Igreja, pois pobres sempre existirão.
Mas será que foi isso que Jesus anunciou?
Quando abrimos os Evangelhos encontramos um Jesus profundamente comprometido com o Reino de Deus. Um Reino que não se limita ao céu, mas começa aqui e agora, onde a vida é restaurada, onde a dignidade humana é reconhecida e onde os pequenos são colocados no centro.
Jesus anunciou a Boa Nova aos pobres. Libertou os oprimidos. Curou os doentes. Acolheu os excluídos. Sentou-se à mesa com os pecadores. Denunciou a hipocrisia religiosa e toda forma de poder que explorava e marginalizava o povo.
Então me pergunto:
Se a Igreja não deve olhar para os pobres, para quem Jesus olhava?
Se a Igreja não deve defender a vida em sua plenitude, o que significa anunciar o Reino de Deus?
Se a missão da Igreja é apenas salvar almas, por que Jesus alimentou multidões, curou enfermos, devolveu dignidade aos marginalizados e denunciou as injustiças de seu tempo?
Basta abrir o livro dos Atos dos Apóstolos e contemplar a primeira comunidade cristã. Ela perseverava na Palavra, na oração, na fração do pão e na comunhão. Mas também colocava seus bens em comum, repartia segundo a necessidade de cada pessoa e fazia com que ninguém passasse necessidade.
Essa não era apenas uma comunidade que rezava. Era uma comunidade que transformava a oração em compromisso concreto com a vida.
É exatamente isso que significa viver o Evangelho.
A missão da Igreja nunca foi apenas preparar pessoas para o céu. Sua missão sempre foi tornar presente, já na história, os sinais do Reino de Deus.
Por isso a Igreja é chamada a ser profética.
Ser profeta não é prever o futuro. É anunciar a esperança de Deus e denunciar tudo aquilo que produz morte, exclusão, fome, violência, desigualdade e destruição da criação.
A voz profética da Igreja não pode se calar diante da injustiça. Não pode permanecer neutra quando irmãos e irmãs são descartados. Não pode anunciar um Cristo crucificado e permanecer indiferente aos crucificados da história.
A Boa Nova do Evangelho não separa fé e compromisso social. Não separa oração e justiça. Não separa liturgia e vida.
Celebrar a Eucaristia significa assumir o compromisso de ser pão repartido para o mundo.
Talvez a grande pergunta que permanece para todos nós seja esta:
Estamos anunciando o mesmo Reino que Jesus anunciou ou estamos defendendo um projeto de Igreja que, muitas vezes, se distancia da prática do próprio Cristo?
Que o Evangelho continue sendo nossa maior referência, nossa consciência crítica e nossa inspiração permanente para construir uma Igreja cada vez mais fiel a Jesus, ao Reino de Deus e aos pobres, que ocupam um lugar central no coração do Evangelho.
Alessandro Poeta:Teólogo,Biblista e Palestrante

Escrito por
Alessandro Poeta
Poeta, teólogo e comunicador do canal Fé, Versos e Vida em Poesia. Reflexão lírica e bíblica com afeto e serenidade.
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